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Prefácio

 

O livro Poxoréo e o Garças, de Jurandir Xavier, é um livro, mas faz o papel de uma tocha. Uma tocha que conduzida por mãos sensíveis de um homem apaixonado por sua região de vivência, descreve a saga dos garimpeiros que ocuparam o antigo leste mato-grossense.

 

E, enquanto caminha em sua narrativa-depoimento, vai lançando luzes em desvãos que a historiografia oficial faz questão de sepultar. Essa, a historiografia oficial, tem sido, como em todo o Brasil, não a história do seu povo, mas a biografia de alguns pró-homens da elite dirigente que, no uso do poder político, registram apenas as notícias que os mistificam e do ângulo que mais lhes favoreçam. Enquanto que esta história, registrada por Jurandir, conta a vida de uma sacrificada e aventureira parcela do povo brasileiro, com toda sua crueza, sua obstinação, suas ditas e desditas, sem reverência gestuais aos donos do poder econômico e político local.

 

E, nesse seu afã de ser fiel aos fatos, descobre lados escuros e esquecidos das ações de alguns mitos da política mato-grossense. Chega a ser cruel a desmistificação da figura de Dom Aquino Corrêa como político, governador do Estado. As manobras para entregar a concessão de uma região diamantífera, de valor incalculável, a grupos internacionais, retirando-a dos brasileiros que, vindos de milhares de quilômetros, da Bahia e do Maranhão, haviam descoberto as jazidas e molhado o chão com seu suor e sangue. Me doeu, particularmente! Dom Aquino foi meu mestre e meu amigo no antigo Seminário da Conceição. Tenho-lhe veneração como sacerdote, como pessoa humana e como intelectual das letras. Desconhecia o ângulo da sua atuação política e a revelação de Jurandir me colhe de surpresa, atingindo-me muito fundo.

 

E o Dr. Mário? Seu ódio declarado aos garimpeiros. O relato de Jurandir destrói os pés de barro de outro ídolo da minha juventude na capital.

 

Em contraste, na medida em que caminha o depoimento do Autor, crescem outras figuras. Dr. Morbeck vira um gigante. Organizando os garimpeiros, liderando-os na paz e na guerra, evitando ciladas dos poderosos de então, e até de seus amigos e comparsas na aventura da vida dos garimpos.

 

Vai mais longe, desce a detalhes. Conta o modo de viver daqueles homens rudes e obstinados, descreve suas moradias-ranchos, a construção delas: as cachaças, as mulheres, as jogatinas, os assassinatos, nenhum temor a Deus ou aos homens e suas regras que valiam, mas fora do garimpo.

 

Ler as páginas de Jurandir, é assistir o filme da ascensão e queda dos garimpos do leste mato-grossense, com os personagens aparecendo e desaparecendo, assim como seus lugares de viver. O Autor quer ser objetivo, a gente sente isso, mas não consegue se libertar da paixão, sem chegar a romantizar fatos e personagens que são apresentados do tamanho que foram e não da estatura que a historiografia oficial lhes atribuiu. Você assiste à cena do incêndio da vila de São Pedro, acompanha o carreiro bêbado tocando fogo no primeiro rancho de palha. Sente a paixão e sofrimento do autor descrevendo o fogaréu. Busca até o auxílio do "Rochinha" para dar-lhe uma mão na descrição, mas logo volta ao natural. Apaga o incêndio e parte para descrição de outras desditas. Entre elas a figura majestosa de Rosa Bororó liderando seu povo guerreiro para entregá-lo de mãos atadas às artimanhas e traições do homem branco que governava!

 

Enfim, o relato deste livro preenche uma lacuna na história do povo mato-grossense. E um livro que merece ser lido outras vezes. Quando por nada fosse, se justificaria por ser um livro escrito com paixão, por um garimpeiro-bacharel apaixonado por sua terra e por sua gente!

Obrigado Jurandir

 

Dr. Edgard Nogueira Borges,

Sobre Dr. Edgard:

Natural de Alto Araguaia com nascimento em 06 de outubro de 1935. Sargento do Exército Brasileiro.
Vereador eleito por São Paulo, impedido de assumir o mandato, fato que gerou o "Levante de Brasília em 1963",
provocando momentos tensos que procederam o contra-golpe militar de 1964.
Advogado.
Diretor da Regional do INCRA MT em 1985.
Chefe do Gabinete do Ministro da Reforma e Desenvolvimento Agrário (Dante Martins de Oliveira) 1986.
Secretário Estadual de Assuntos Fundiários, 1988.
Secretário Estadual de Educação e Cultura de Mato Grosso, 1989.

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